segunda-feira, 31 de agosto de 2026

UMA GUERREIRA COM “MÃOS DE OURO”: A HISTÓRIA DA 'MENINA DO CROCHÊ'!

 



 Habilidade nasce realmente com cada ser? Ou no decorrer da nossa vida podemos desenvolver, e até mesmo sob enorme força de vontade ou grande desafio conseguimos aprender aquilo que nunca imaginávamos ter capacidade para tal. 

E ai, vemos que o mundo está repleto de seres dotados das mais interessantes capacidades.

Nessa matéria, vamos conhecer D. Edith Sodré (75 lindos anos muito bem vividos) que mostrou ainda muito jovem à sua avó que conseguiria fazer as peças mais lindas de crochê, mesmo que em momento nenhum contasse com o apoio dela.


Nascida em Cabuçu de Itaboraí (na época São Gonçalo, hoje Itaboraí), sua infância foi com sua mãe e o seu pai, um pequeno agricultor. Nesta vida de lavoura, onde havia fartura (pois comiam tudo o que plantavam) dada pela terra, faltava outros gêneros básicos. Eram momentos difíceis. Seu pai já é falecido, mas ainda vive com sua mãe (D Ilda, 94 anos) num sítio entre Itapeba e o Retiro.

Sua vida sempre foi de muita luta, a infância muito difícil principalmente por que precisamos morar na casa da sua avó, uma senhora extremamente racista, e que tinha grande aversão pela jovem Edith, uma criança negra. Sua avó, nunca chamou Edith pelo seu nome e só a chamava de “negra Moçambique”.

Mas a avó de Edith era eximia crocheteira, bordava pontos de cruz, era costureira, mas nunca se dispôs em ensinara nada para a neta “negra”, apesar de Edith ser apaixonada por tudo que sua avó fazia. Ela na verdade só ensinou algo à sua irmã e sua prima, pois a primeira neta foi ela quem a criou e se trancava no quarto com a sua irmã e sua prima e Edith, ficava na janela ouvindo a avó explicar para as meninas como era o ponto de cruz. Edith, da janela, só em ouvir e pouco olhar (embora fosse o suficiente para ela) já entendia como tudo era feito e foi aprendendo tudo, com os dons que Deus lhe emprestou.

O crochê foi ficando mais difícil, sua irmã e sua prima não conseguiam aprender e então a mãe de Edith pediu que a avó lhe ensinasse a arte e teve como resposta uma frase seca: “não vou perder tempo não, vou dar apenas uma explicação e vou parar”.

Mas a explicação foi mais do que suficiente e em apenas um dia, Edith aprendeu e com o tempo foi se aperfeiçoando.

Na época, na roça não havia meios de uma sobrevivência adequada, ai Edith passou a cortar capim para lojas de vidros, para lojas de colchões, fez tapetes, até que um dia vendo uma revista de fotonovela (que faziam muito sucesso na época) viu o anúncio de uma revista de crochê  e pediu ao seu pai que a ajudasse (na época Cr$ 7,50 – sete cruzeiros e cinquenta centavos). Mas quando a revista chegou pelos Correios, Edith já tinha algum dinheiro, fruto do seu trabalho e não precisou da ajuda do pai. Foi ai que deslanchou, fazendo inúmeras peças apenas estudando e observando o que estava na revista.

Começou fazendo três peças, colocando na bolsa e saindo para vender. Vendeu tudo e tinha dinheiro até para voltar para casa de ônibus. Estava no ponto da praça Padre Carvalho Batalha onde hoje existe o laboratório Sérgio Franco no centro de São Gonçalo.

Uma senhora, chamada Miriam puxou conversa com Edith perguntando se ela sabia fazer vestido de crochê, por que a mãe dela (D. Fina) queria um e estava difícil encontrar quem fizesse.

Mesmo sem nunca ter feito algo parecido, Edith afirmou que fazia. Miriam que forneceu quatro novelos (o vestido era cumprido). Fez então o primeiro vestido no estilo rococó, manga ¾, lindo, uma obra de arte. Miriam adorou o vestido e ficou mais impressionada quando Edith devolveu dois novelos que não foram utilizados. Ficou tão satisfeita com tamanha honestidade que encomendou outro vestido para outra pessoa. Pediu 8 novelos, o vestido era mais complexo e com muito mais detalhes e é claro, ficou lindo. As encomendas iam se multiplicando para D. Fina e para Miriam.

Um certo dia a professora Heloisa Helena estava com casamento marcado e queria um vestido diferente. Foi mais uma indicação de Miriam, mostrando tudo o que Edith fazia e a encomenda de um vestido de noiva, todo de crochê foi fechado. Na época, na casa de Edith ainda não existia luz elétrica e ela só trabalhava durante o dia pois a noite, a luz da lamparina erra muito fraca. O vestido ficou pronto em uma semana.

Depois disso, ficou conhecida como a “Menina do Crochê” e até hoje é conhecida assim.

Teve um Box no Mercado das Artes em Maricá durante anos, mas o horário de funcionamento impossibilitou que continuasse por lá.

Mesmo adoentada, devido a uma bronquite, Edith não parava e confessa que ganhou muito dinheiro com suas peças, verdadeiras obras de arte.

Hoje, com 70 anos, sente saudades daquela época, mas continua na luta e fazendo coisas cada vez mais incríveis. 

Viúva, sente saudades do marido que afirma ter sido maravilhoso com ela. Foram 30 anos juntos, uma vida de sacrifícios, mas, superou com seu crochê e depois se integrando ao coletivo TRAMA CRIATIVA, apresentado por Pricilla Darmont à responsável do coletivo Delaney Brito (agora vendendo produtos da Natura) está se levantando novamente.

D. Edith hoje é uma das diretoras da TRAMA CRIATIVA, coletivo que reúne diversas artesãs de Maricá.

Essa é um pouquinho da linda história da “Menina do Crochê”.

Telefone para encomendas: 21 97217-3930