O debate sobre a "pick-me girl" explodiu no mundo online recentemente. E quando começa o 'BBB', sempre tem uma participante acusada de ser assim. Nossa cultura tem alimentado isso em todos os sentidos: tanto no incentivo a esse comportamento, quanto à sua crítica. A hashtag #pickme no TikTok tem sido usada para denunciar esse tipo de comportamento – e talvez seja por isso que tem quase seis bilhões de visualizações (e contando) na plataforma.
"Ao aprender a definição do que é uma pick-me girl, e quase certo ao testemunhar esse comportamento, é fácil dar um veredicto rápido e implacável que colapsa as complexidades do feminismo. Mas nossa resposta negativa e instintiva ao fenômeno expõe um lado ainda mais sombrio da desigualdade de gênero, que reflete nossa própria crítica contra nós mesmas", falou a influenciadora Jessica Alderson.
Saiba mais sobre o que é uma pick-me girl, como o conceito aprisiona as mulheres em um ciclo de aprovação masculina e como se pode escapar das condições dentro das quais todo o discurso existe.
O conceito é amplamente definido como uma mulher heterossexual que faz de tudo para impressionar os caras e fazer parecer que "não é como as outras garotas".
"O comportamento 'pick me' é usado para atrair as pessoas e depois mantê-las lá", disse Jessica Alderson, especialista em relacionamentos e cofundadora da So Syncd, à Refinery29.
"Elas querem que você pense que elas são únicas e que você não seria capaz de encontrar mais ninguém que seja tão especial quanto elas."
O comportamento pick-me pode envolver vestir-se de forma mais sensual na presença de homens, agir de forma mais flertante e brincalhona, gabar-se de riqueza e status e falar mal dos outros – tudo supostamente na busca da atenção masculina.
Uma maneira infalível de identificar uma pick-me girl é aquela pessoa que denuncia comportamentos estereotipados como femininos, como usar maquiagem, por exemplo, para parecer que "não é como as outras garotas".
Mulheres proclamando que "odeiam o drama que mulheres fazem" e que só têm amigos homens também é um comportamento típico de pick-me girl.
O comportamento pick-me também inclui concordar ou expressar pensamentos antifeministas para se alinhar (na realidade ou apenas em sua mente) com os homens. É a ponta do iceberg da misoginia subconscientemente internalizada, que está por trás da maior parte desse discurso.
Outro traço comum é insistir que elas dão menos trabalho do que a maioria das meninas e tentar agir de forma muito descontraída, como se essas duas características se opusessem naturalmente à natureza das mulheres.
Ao mesmo tempo, o comportamento pick-me também envolve a adoção de alguns comportamentos e atividades estereotipados como naturais de homens cisgêneros e heterossexuais, como gostar de esportes, videogame ou beber cerveja – como se essas coisas fossem naturalmente reservadas para os homens.
Não há problema nenhum se uma mulher realmente gosta dessas coisas. O que caracteriza a pick-me girl é gostar disso só porque os homens gostam ou para ser diferente das outras mulheres.
É BASTANTE PRIMITIVO (???)
De acordo com a coach de relacionamento e autora Catherine Wilde, esses traços de pick-me são uma forma de namoro "em que um indivíduo tenta aumentar suas chances de ser escolhido como parceiro, envolvendo-se em comportamentos que o tornam mais atraente para o gênero oposto", disse à Refinery29. É bem parecido com os animais machos que se derrubam para mostrar a uma fêmea que eles são o melhor parceiro.
Por que tem uma reputação tão ruim
Uma simples espiada no mundo online mostrará o quão odiadas são as pick-me girls, e a principal razão pela qual elas são tão criticadas é porque seu comportamento usa a aprovação dos homens como base do valor de uma mulher.
Colocando mulheres contra mulheres
Além disso, qualquer mulher que não queira ser como outras mulheres inerentemente generaliza "outras mulheres" negativamente e através de uma lente patriarcal de competição.
A ilusão da competição
O enquadramento da pick-me girl cria e perpetua a ilusão de que, para se tornar mais atraente, as mulheres devem tornar as outras mulheres menos atraentes. A realidade é (ou deveria ser) que alguém que tenta derrubar os outros se torna menos atraente.
Homens permanecem no centro da discussão
Todo o conceito se volta para o julgamento dos homens sobre as mulheres e coloca a atenção e a aprovação dos homens como as coisas mais altas que uma mulher pode esperar vencer.
Por outro lado
Mas a reação intensamente negativa que as pessoas têm em relação às pick-me girls destaca outra parte problemática da sociedade: quão pouca tolerância existe para qualquer mulher que esteja "tentando" de forma transparente se destacar seja no mercado ou apenas na própria vida – o que mantém essa ideia de que as mulheres devem ser legais e atraentes, mas só se for sem esforço e sem qualquer intenção aparente.
O problema de tentar
Wilde disse à Refinery29: "Embora não haja nada inerentemente errado em querer ser notada ou querer se sentir amada, o termo muitas vezes tem uma conotação negativa porque implica que a pessoa está disposta a fazer qualquer coisa para conseguir o que quer".
É interessante que possamos pensar em inúmeras histórias dentro de Hollywood celebrando homens que estão dispostos a fazer qualquer coisa pelo que desejam, mas, quando se trata de mulheres, essa atitude é rapidamente criticada.
Casos de celebridades
As celebridades têm um envolvimento interessante nessa tendência, porque todas elas tecnicamente foram pessoas escolhidas para se tornarem famosas em primeiro lugar, disputando os holofotes com colegas artistas e talentosos.
Ainda assim, apenas as mulheres são criticadas por isso. Muitas estrelas, incluindo Addison Rae, Jennifer Lawrence e Kendall Jenner (foto abaixo), foram acusadas de ter comportamento de pick-me girl e algumas até abordaram isso.
Vanessa Lopes
A influenciadora e dançarina esteve no 'Big Brother Brasil'. Não demorou muito para ela ser chamada de pick me girl, apesar de seu discurso contra a rivalidade feminina. Em mais de uma ocasião, ela preferiu acreditar na versão que um homem contou, e se negou até mesmo a ouvir a versão da mulher.
Emily Ratajkowski
Emily Ratajkowski admitiu em várias ocasiões que costumava ser uma pick-me girl. No podcast 'Going Mental with Eileen Kelly', em março de 2023, ela definiu isso como abandonar suas "próprias prioridades para ser amada ou escolhida". Isso se estendeu para sua carreira, segundo a própria modelo, porque ela estava "apelando para muitos homens poderosos, essencialmente". Ela acrescentou: "Eu simplesmente abandonei totalmente meus próprios limites e minhas próprias ideias do que é importante".
Presa em um ciclo
Não importa a maneira que olhamos essa situação (sendo uma pick-me girl ou criticando o comportamento), o discurso nos mantém presas num pesadelo patriarcal em que mulheres permanecem em um ciclo de perseguir a aprovação masculina enquanto competem umas com as outras.
Dedos apontados
Enquanto as pick-me girls são envergonhadas por serem misóginas, envergonhar as pick-me girls também está sendo chamado de misoginia.
As mulheres podem, afinal de contas, ter opiniões divergentes, rejeitar coisas como maquiagem e abraçar coisas como esportes sem que isso seja apenas em nome da atenção ou da validação masculina.
Mas é uma preocupação crescente num mundo cada vez mais inseguro.
Num mundo que é bastante conhecido por fazer as pessoas se sentirem inseguras sobre si mesmas, faz sentido que o comportamento pick-me seja tão comum. Isso indica que a pessoa não é confiante o suficiente para escolher seu eu autêntico e que prefere adotar estrategicamente uma determinada persona para atrair a atenção.
Um sinal vermelho em relacionamentos
O comportamento pick-me também configura as condições manipuladoras para um relacionamento tóxico. Nenhum relacionamento deve começar sobre o fingimento de uma personalidade, nem na aposta da sua reputação na difamação dos outros.
Quem está em relacionamento não está imune
Esse comportamento também não é reservado apenas para pessoas solteiras. Pessoas inseguras em seus relacionamentos – por exemplo, se seu parceiro começa a curtir fotos de outras mulheres – podem começar a assumir certos comportamentos para se destacar contra essas mulheres.
Relacionamentos condenados
A vulnerabilidade é essencial para um relacionamento real e duradouro. É impossível se fazer vulnerável ao lado de um parceiro se você está fingindo ser alguém que não é. Além disso, uma personalidade escolhida não é sustentável e você ficará exausta, emocionalmente esgotada e ressentida.
O crescimento da "girl's girl"
Talvez em oposição direta à pick-me girl, a "girl's girl" (garota da garota) tenha surgido como um distintivo de honra altamente louvável. Uma girl's girl é alguém que se esforça para ser ética e abster-se de mesquinharias em seus relacionamentos femininos, valorizando-os talvez até mais do que seus relacionamentos masculinos. É a sororidade em sua forma mais pura.
Comportamento da Girl's girl
Isso envolve ter amigas íntimas, falar muito bem de outras mulheres (mesmo na presença de homens), dizer a uma mulher que ela parece ótima em vez de zombar dela, não fofocar, abraçar o amplo espectro do que qualquer "feminilidade" significa, vestir-se para si mesma e, geralmente, levantar as mulheres sem medo de que elas sejam sua concorrência. Enfim, sororidade!
O problema do policiamento
Não importa onde você esteja no discurso, o problema geral é que, depois de anos sendo policiadas pelo patriarcado sobre o que é e o que não é apropriado para as mulheres fazerem, as mulheres consequentemente começaram a se policiar. A única solução real para esse discurso é acabar com ele completamente. Esquecer mágoas, invejas e disputas.
Como seguir em frente
Rejeitar rótulos do que é tradicionalmente "feminino" ou "masculino" é um bom lugar para começar. Para escapar do olhar masculino e da misoginia internalizada que nos aprisiona nisso, as mulheres só precisam se sintonizar e permanecer fiéis aos seus próprios desejos e necessidades, não importa o que os outros possam pensar. Se for necessário, se interiorize, pense primeiro em você e vá se preparando para abrir-se para o mundo.
Saiba escolher bem seus passos, seus lugares, seus relacionamentos. O importante é você se encontrar e ser feliz!
Tudo é questão de tempo. O seu tempo, ao mesmo tempo em que oferecem às outras a mesma oportunidade.
Texto adaptado e pesquisa: Pery Salgado (jornalista)
Imagens: arquivo CULTURARTE
Realização: PR Produções




















































