Em 3 de agosto de 2014, o som dos motores na região de Sinjar, no Iraque, não anunciava progresso — marcava o início de um pesadelo. Em um único dia, uma comunidade inteira foi praticamente apagada.
Nadia Murad tinha apenas 21 anos quando seu mundo virou cinzas.
Pelo simples fato de pertencer à minoria yazidi, terroristas do Estado Islâmico decidiram que sua família não tinha o direito de viver. Seis de seus irmãos e sua mãe foram executados. Nadia não teve tempo de chorar por eles — foi colocada à força em um ônibus e transformada em “propriedade”.
O que veio depois foi um verdadeiro mergulho no inferno. Em Mosul, Nadia deixou de ser vista como pessoa — era tratada como mercadoria.
Em apenas três meses, foi comprada e vendida sete vezes. Sofreu agressões e abusos constantes, com um único objetivo: destruí-la por completo.
Mas Nadia resistiu.
Em novembro daquele mesmo ano, surgiu uma chance: uma porta esquecida aberta. Na escuridão da noite, ela conseguiu fugir. Uma família muçulmana, arriscando a própria vida, a acolheu e ajudou a escapar das mãos do califado.
Muitos tentariam se esconder e esquecer. Nadia fez o oposto — escolheu lembrar.
Aos 22 anos, falou diante do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Jovem, de aparência frágil, mas com uma voz que ecoou pelos centros de poder. Sem suavizar a realidade, contou ao mundo o que seu povo havia sofrido.
Sua coragem conseguiu o que a política não alcançou. Em 2018, aos 25 anos, Nadia Murad se tornou a primeira iraquiana a receber o Prêmio Nobel da Paz. Ainda assim, enquanto era aplaudida em Oslo, seu desejo continuava o mesmo: a liberdade daqueles que ainda permaneciam em cativeiro.
Hoje, Nadia transformou sua dor em luta por justiça por meio da organização Nadia’s Initiative. Sua história é prova de que o sofrimento pode se transformar em propósito.
Nadia não apenas sobreviveu — ela venceu ao se recusar a ser definida como vítima. Porque quando a verdade é usada como força, não existe escuridão capaz de apagá-la.
Veja o poderoso discurso da vencedora do Nobel da Paz de 2018 ao ser nomeada embaixadora da ONU
Nadia Murad, ex-escrava sexual do Estado Islâmico, luta para combater o estupro como uma arma de guerra
Confira o poderoso discurso de Nadia Murad ao ser nomeada a primeira embaixadora da Boa Vontade da ONU para a Dignidade de Sobreviventes do Tráfico Humano em 2016.
"Se decapitações, escravização sexual, estupro de crianças e o deslocamento de milhões de pessoas não fazem vocês tomarem uma atitude, quando vocês tomarão uma atitude? A vida não foi criada somente para vocês e suas famílias. Nós também queremos a vida e merecemos vivê-la", disse a ativista no vídeo divulgado pela ONU Brasil em suas redes sociais.
Nadia foi sequestrada pelo E. I. - Estado Islâmico, junto com milhares de outras mulheres e meninas da minoria Yazidi quando o grupo terrorista invadiu sua terra natal, no Norte do Iraque, em agosto de 2014. Foi selecionada pelo E.I. para ser estuprada. No entanto, diferentemente da maioria das mulheres que conseguiram fugir e que preferem esconder suas identidades, Nadia, ao escapar, insistiu com repórteres que a identificassem e fotografassem. Ela embarcou numa campanha mundial, falando diante do Conselho de Segurança da ONU, no Congresso americano, na Câmara dos Comuns do Reino Unido e em outras casas políticas em várias nações.
"Hoje eu quero transmitir uma mensagem de todas as vítimas e refugiados de todo o mundo porque vocês como líderes mundiais devem saber que tudo que fazem impactam positivamente ou negativamente na vida das pessoas simples como eu. Vocês decidem se haverá guerra ou paz. Vocês decidem dar esperança ou criar sofrimento. São vocês que decidem se outra garota, assim como eu, em outro lugar do mundo, poderá seguir com sua vida normal ou será forçada, como eu fui, a experienciar sofrimento, servidão ou estupro", afirmou no discurso de 2016.
Enquanto estava nas mãos dos jihadistas, Nadia recebeu ajuda de uma família muçulmana em Mosul e obteve documentos de identidade que lhe permitiram chegar ao Curdistão iraquiano. Após a fuga, três meses depois do sequestro, a jovem - que disse ter perdido seis irmãos e sua mãe no conflito - morava em um campo de refugiados no Curdistão, onde fez contato com uma organização humanitária que ajuda os yazidis. Isso permitiu que ela conseguisse ir para a Alemanha, país em que atualmente vive.
"Devemos por um fim às guerras e colocar a humanidade em primeiro lugar. Devemos levar a Justiça a todos aqueles que cometeram crimes de genocídio e crimes contra a humanidade. Organizações extremistas e terroristas, como o Estado Islâmico e o Boko Haram, são a principal causa do deslocamento de milhões de pessoas, devemos eliminar todos esses monstros agora. Sim, agora. Até que a segurança se estabeleça nas áreas de conflito, nós não podemos fechar as portas nas caras de mulheres e crianças inocentes, aqueles que sofreram calamidades. Devemos estar junto das pessoas perseguidas. O mundo só tem uma fronteira, se chama humanidade", ressaltou.
A ativista contou sua história na autobiografia "The last girl" ("A última garota"), recém-publicada.
O título remete a uma frase no livro: "Eu quero ser a última garota no mundo com uma história como a minha".
Confira abaixo o seu discurso na ONU:
Reconhecimento e Legado
Prêmio Nobel da Paz: Recebeu a honraria em 2018, dividindo o prêmio com o médico Denis Mukwege.
Livro: Publicou sua biografia intitulada "Que Eu Seja a Última", onde detalha os horrores que viveu e sua jornada por justiça.
Código Murad: Criou diretrizes internacionais para que testemunhos de violência sexual sejam colhidos com respeito e segurança para as vítimas.
Ponto de Apoio: Se você ou alguém que você conhece está passando por uma situação de violência, procure ajuda.
No Brasil, o Ligue 180 é a Central de Atendimento à Mulher, um serviço gratuito e confidencial que oferece orientações e encaminhamentos.























































