Fenômeno surge como contraponto aos discursos da chamada "machosfera", sem defender hostilidade contra homens.
O movimento Pink Pill ganha espaço nas redes sociais brasileiras em meio ao debate sobre violência contra a mulher, relacionamentos abusivos e misoginia. A expansão ocorre paralelamente à popularização de comunidades da chamada “machosfera”, como a Red Pill, que reúne discursos de superioridade masculina e rejeição ao feminismo.Como reação ao aumento da violência contra a mulher no Brasil, que registrou 1.492 casos de feminicídios em 2024, segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2025 — a cada dia cerca de quatro são assassinadas —, influenciadores digitais aderiram ao termo Pink Pill para compartilhar estratégias de segurança. A expressão feminista surge como resposta ao discurso do movimento Red Pill — comunidades on-line que difundem discursos de superioridade masculina, hostilidade às mulheres e rejeição ao feminismo. As pink pills, como se identificam as influencers, publicam estratégias de autodefesa, ensinam como identificar falas misóginas e orientam como sair de relacionamentos machistas.

Nas redes, as chamadas pink pills compartilham conteúdos sobre identificação de comportamentos misóginos, autonomia, autoestima, relacionamentos abusivos e estratégias de segurança. A proposta, porém, não possui uma definição única e reúne diferentes correntes, que vão da orientação para mulheres em situações de abuso a vertentes mais radicais.
Um dos exemplos que ganhou grande repercussão é o das irmãs baianas Cah Fernandes, 26 anos, e Hyla Natiely Fernandes, 21. Psicóloga e administradora, respectivamente, as duas viralizaram no TikTok e no Instagram ao abordar machismo, misoginia e autodefesa feminina. A primeira publicação ultrapassou 1,2 milhão de visualizações e ajudou a formar a comunidade on-line Pink Pill.
A iniciativa começou no início de 2026, quando as irmãs planejavam um quadro no YouTube no qual consertariam uma motocicleta usando minissaias e sandálias de plataforma. A combinação de humor, estética e discussão sobre feminismo acabou transformando o projeto em uma produção voltada a questões sociais.
A proposta, dizem, é disputar narrativas e colocar a mulher no centro do debate.
“A ideia é colocar a chamada ‘lente rosa’, ver a vida por uma narrativa de poder feminino”, afirma Hyla. As irmãs também passaram a discutir a criação de comunidades presenciais, como o Pink Club, em Salvador.
Outra influenciadora associada ao movimento é Brenda Reyes, 27 anos, conhecida nas redes como Brendioous. Com mais de 200 mil seguidores no TikTok, ela produz vídeos sobre relacionamentos, autoestima e identificação de comportamentos abusivos. Ela se apresenta como sobrevivente de relacionamentos conturbados e afirma que a proposta é ajudar mulheres a reconhecerem seu próprio valor: “A principal coisa que o movimento defende é a autovalorização feminina, é sobre você não aceitar menos do que você merece”.
Segundo Brenda, a orientação não consiste em tratar homens como uma ameaça, mas em identificar sinais de comportamento potencialmente abusivo sem generalizações.
Padrões de abuso
Brenda também conhecida nas redes sociais por publicar vídeos voltados a conselhos amorosos, dicas de relacionamentos e discussões sobre o comportamento masculino sob a ótica do movimento Pink Pill, a influenciadora digital Brenda Reyes, de 27 anos, se define como “sobrevivente de relacionamentos conturbados”.
A jovem começou a orientar mulheres a romperem padrões de abuso, ensinando a conquistar e fortalecer seu próprio valor. Brendioous, como se autointitula nas redes sociais, posta vídeos defendendo que as mulheres se valorizem.
"A principal coisa que o movimento defende é a autovalorização feminina, é sobre você não aceitar menos do que você merece. Não prevê colocar os homens como ameaça, mas observar quais são os sinais de atuação, de comportamento de um homem ameaçador, e observar os sinais de comportamento sem generalizar", explica Reys.
Feminismo não é o oposto do machismo
A associação entre Pink Pill e feminismo também exige uma distinção conceitual. Feminismo não é um contraponto ao machismo no sentido de uma disputa entre homens e mulheres. O movimento feminista defende a igualdade de direitos, oportunidades e tratamento entre os gêneros, enquanto o machismo está relacionado à ideia de superioridade masculina e à manutenção de desigualdades.
Da mesma forma, misandria (hostilidade, desprezo ou ódio contra homens) não é um princípio do feminismo nem uma característica necessária do Pink Pill. Conteúdos ou grupos específicos podem assumir posições misândricas, mas isso não permite atribuir essa postura ao movimento como um todo.
A antropóloga digital Carol Luck avalia que a expansão da machosfera está relacionada também às transformações sociais nas relações entre homens e mulheres. Para ela, a perda de referências tradicionais de autoridade e controle pode alimentar ressentimentos, enquanto comunidades on-line oferecem explicações simplificadas para frustrações pessoais.
Já a socióloga Fernanda Medeiros, do Centro Universitário de Brasília, observa que Red Pill e Pink Pill encontram público porque abordam experiências comuns, como rejeição, relacionamentos e conflitos afetivos. O problema, segundo ela, aparece quando experiências individuais são transformadas em regras gerais sobre todos os homens ou todas as mulheres.
Da internet a casos de violência
O debate ganhou dimensão internacional diante de episódios extremos associados à chamada manosphere. No Reino Unido, Kyle Clifford, de 26 anos, matou em 2024 as irmãs Louise e Hannah Hunt e a mãe delas, Carol Hunt, em Bushey. Ex-namorado de Louise, ele também foi condenado pelo estupro da jovem. Segundo autoridades, Clifford consumia vídeos de influenciadores ligados à “manosphere” (machosfera).
Entre os nomes mais conhecidos desse universo está Andrew Tate, influenciador britânico-americano que já se declarou “absolutamente misógino” e fez declarações depreciativas sobre mulheres. Sua atuação ajudou a popularizar discursos de hiper-masculinidade e hostilidade ao feminismo nas redes.
Nesse ambiente de disputa de narrativas, o Pink Pill aparece como uma expressão heterogênea. Para a especialista em direitos das mulheres Lina AbiRafeh (foto acima), o termo surgiu em espaços feministas e quer como resposta às comunidades Red Pill e Black Pill, podendo ser utilizado tanto de forma irônica quanto para defender solidariedade e autonomia entre mulheres.No Brasil, portanto, o fenômeno não pode ser resumido à ideia de “ódio aos homens”. Em sua vertente voltada à segurança, à autonomia e à identificação de abusos, o Pink Pill procura colocar experiências femininas no centro do debate sobre violência e relacionamentos, sem que isso signifique transformar a igualdade de gênero em uma guerra entre gêneros.
Texto: Rayza Espírito Santo (Redatora, repórter de editorias diversas, social media e fotojornalista do jornal Gazeta 24 horas) e de Esther Gama Estagiária sob supervisão de Cibelle Brito, jornal O Globo