segunda-feira, 31 de agosto de 2026

UMA GUERREIRA COM “MÃOS DE OURO”: A HISTÓRIA DA 'MENINA DO CROCHÊ'!

 



 Habilidade nasce realmente com cada ser? Ou no decorrer da nossa vida podemos desenvolver, e até mesmo sob enorme força de vontade ou grande desafio conseguimos aprender aquilo que nunca imaginávamos ter capacidade para tal. 

E ai, vemos que o mundo está repleto de seres dotados das mais interessantes capacidades.

Nessa matéria, vamos conhecer D. Edith Sodré (75 lindos anos muito bem vividos) que mostrou ainda muito jovem à sua avó que conseguiria fazer as peças mais lindas de crochê, mesmo que em momento nenhum contasse com o apoio dela.


Nascida em Cabuçu de Itaboraí (na época São Gonçalo, hoje Itaboraí), sua infância foi com sua mãe e o seu pai, um pequeno agricultor. Nesta vida de lavoura, onde havia fartura (pois comiam tudo o que plantavam) dada pela terra, faltava outros gêneros básicos. Eram momentos difíceis. Seu pai já é falecido, mas ainda vive com sua mãe (D Ilda, 94 anos) num sítio entre Itapeba e o Retiro.

Sua vida sempre foi de muita luta, a infância muito difícil principalmente por que precisamos morar na casa da sua avó, uma senhora extremamente racista, e que tinha grande aversão pela jovem Edith, uma criança negra. Sua avó, nunca chamou Edith pelo seu nome e só a chamava de “negra Moçambique”.

Mas a avó de Edith era eximia crocheteira, bordava pontos de cruz, era costureira, mas nunca se dispôs em ensinara nada para a neta “negra”, apesar de Edith ser apaixonada por tudo que sua avó fazia. Ela na verdade só ensinou algo à sua irmã e sua prima, pois a primeira neta foi ela quem a criou e se trancava no quarto com a sua irmã e sua prima e Edith, ficava na janela ouvindo a avó explicar para as meninas como era o ponto de cruz. Edith, da janela, só em ouvir e pouco olhar (embora fosse o suficiente para ela) já entendia como tudo era feito e foi aprendendo tudo, com os dons que Deus lhe emprestou.

O crochê foi ficando mais difícil, sua irmã e sua prima não conseguiam aprender e então a mãe de Edith pediu que a avó lhe ensinasse a arte e teve como resposta uma frase seca: “não vou perder tempo não, vou dar apenas uma explicação e vou parar”.

Mas a explicação foi mais do que suficiente e em apenas um dia, Edith aprendeu e com o tempo foi se aperfeiçoando.

Na época, na roça não havia meios de uma sobrevivência adequada, ai Edith passou a cortar capim para lojas de vidros, para lojas de colchões, fez tapetes, até que um dia vendo uma revista de fotonovela (que faziam muito sucesso na época) viu o anúncio de uma revista de crochê  e pediu ao seu pai que a ajudasse (na época Cr$ 7,50 – sete cruzeiros e cinquenta centavos). Mas quando a revista chegou pelos Correios, Edith já tinha algum dinheiro, fruto do seu trabalho e não precisou da ajuda do pai. Foi ai que deslanchou, fazendo inúmeras peças apenas estudando e observando o que estava na revista.

Começou fazendo três peças, colocando na bolsa e saindo para vender. Vendeu tudo e tinha dinheiro até para voltar para casa de ônibus. Estava no ponto da praça Padre Carvalho Batalha onde hoje existe o laboratório Sérgio Franco no centro de São Gonçalo.

Uma senhora, chamada Miriam puxou conversa com Edith perguntando se ela sabia fazer vestido de crochê, por que a mãe dela (D. Fina) queria um e estava difícil encontrar quem fizesse.

Mesmo sem nunca ter feito algo parecido, Edith afirmou que fazia. Miriam que forneceu quatro novelos (o vestido era cumprido). Fez então o primeiro vestido no estilo rococó, manga ¾, lindo, uma obra de arte. Miriam adorou o vestido e ficou mais impressionada quando Edith devolveu dois novelos que não foram utilizados. Ficou tão satisfeita com tamanha honestidade que encomendou outro vestido para outra pessoa. Pediu 8 novelos, o vestido era mais complexo e com muito mais detalhes e é claro, ficou lindo. As encomendas iam se multiplicando para D. Fina e para Miriam.

Um certo dia a professora Heloisa Helena estava com casamento marcado e queria um vestido diferente. Foi mais uma indicação de Miriam, mostrando tudo o que Edith fazia e a encomenda de um vestido de noiva, todo de crochê foi fechado. Na época, na casa de Edith ainda não existia luz elétrica e ela só trabalhava durante o dia pois a noite, a luz da lamparina erra muito fraca. O vestido ficou pronto em uma semana.

Depois disso, ficou conhecida como a “Menina do Crochê” e até hoje é conhecida assim.

Teve um Box no Mercado das Artes em Maricá durante anos, mas o horário de funcionamento impossibilitou que continuasse por lá.

Mesmo adoentada, devido a uma bronquite, Edith não parava e confessa que ganhou muito dinheiro com suas peças, verdadeiras obras de arte.

Hoje, com 70 anos, sente saudades daquela época, mas continua na luta e fazendo coisas cada vez mais incríveis. 

Viúva, sente saudades do marido que afirma ter sido maravilhoso com ela. Foram 30 anos juntos, uma vida de sacrifícios, mas, superou com seu crochê e depois se integrando ao coletivo TRAMA CRIATIVA, apresentado por Pricilla Darmont à responsável do coletivo Delaney Brito (agora vendendo produtos da Natura) está se levantando novamente.

D. Edith hoje é uma das diretoras da TRAMA CRIATIVA, coletivo que reúne diversas artesãs de Maricá.

Essa é um pouquinho da linda história da “Menina do Crochê”.

Telefone para encomendas: 21 97217-3930








domingo, 30 de agosto de 2026

"PAPO RETO E SÉRIO! Meu pedido real de SOCORRO!" por Célia Tavares


Quando publicamos no INFORMATIVO CULTURARTE em 17 de agosto a matéria baseada no texto da nossa querida Célia Tavares (https://culturarteenpr.blogspot.com/2026/08/nao-queira-me-dizer-o-que-e-certo-ou.html) e ao ver o inteiro teor da mensagem (um verdadeiro momento de alerta e um grande pedido de socorro), acrescentamos ao final a palavra SOCORRO, pois vimos que ali, Célia tentava já mostrar os abusos pelos quais sofria.

Em conversas (via WhatsApp), vários relatos (fortes), sobre o que estava passando e sofrendo como assédio na sua vida profissional, em questões de saúde e no seu relacionamento pessoal.

E corajosamente (lutando para recomeçar), em suas redes sociais na quarta feira 26 de agosto, Célia postou, bradou sua independência e seu verdadeiro grito de alerta e socorro que com a devida autorização da mesma reproduziremos na íntegra abaixo:

"Papo reto e sério!

O abuso narcisista prolongado não fere apenas a alma; ele adoece o corpo e quebra a mente. 

Quando você passa anos sendo silenciada, manipulada e obrigada a pisar em ovos dentro do seu próprio lar, o seu sistema nervoso entra em colapso. O abuso psicológico continuado é um trauma invisível que deixa sequelas reais.

Quem sobrevive ao cativeiro emocional de um narcisista costuma carregar no corpo o peso de diagnósticos severos, desenvolvidos pela exposição constante ao estresse extremo:

- TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático): A mente continua revivendo o perigo mesmo após o fim do ciclo, gerando flashbacks e insônia.

- Ansiedade Generalizada e Crises de Pânico: O medo constante de errar, se transforma em um nó no peito crônico.

- Depressão Profunda: O esgotamento de tentar salvar quem é raso, apaga o brilho e a vontade de viver.

- Doenças Psicossomáticas e Autoimunes: O corpo grita o que a boca engoliu por anos na forma de dores e inflamações.


Se afastar de quem te adoece não é egoísmo, é a única chance de cura para um pássaro de asas feridas. O tratamento começa quando você assume a soberania do seu templo interno. 

Quantas dessas marcas você está carregando sozinho, achando que era apenas estresse, enquanto o 'jogo' roubava a sua vitalidade?

OBS: Essa é uma história verídica vivida por mim mesma, casada durante 21 anos com um lunático, esquizofrênico.

E as marcas ficaram!!!"

Texto: Célia Tavares (servidora pública municipal)
Diagramação: Pery Salgado (jornalista)
Fotos (autorizadas): Célia Tavares
Realização: PR PRODUÇÕES







sábado, 29 de agosto de 2026

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE LARISSA MOLINA, PSICÓLOGA E NEUROPSICÓLOGA


"A EXPO MARICÁ 2026 que aconteceu nos dias 6, 8 e 9 de agosto na Arena da Barra de Maricá (criada e produzida pelo empresário Delfim Moreira) reuniu vários expositores de diversos segmentos, no maior evento de empreendedorismo e troca de informações e aprendizados da região.

Por mais um ano (estou lá há 22 anos, fazendo a cobertura desde a primeira das 19 edições) tive o prazer de cobrir este mega evento e pelo segundo ano consecutivo, o prazer maior ainda de poder estar ao lado da minha esposa (minha grande companheira) uma grande e diferenciada artesã (Pricilla Darmont) que expôs seu belíssimo trabalho com mais um retumbante sucesso.

No meu trabalho de cobertura do evento (matérias e Expodcast que já virou marca da Expo Maricá), conheci várias pessoas, revi outras, mas uma em especial me chamou atenção: uma jovem pequenina, muito branquinha, vestindo calça preta e um colete vermelho (da Cruz Vermelha), que evidenciavam sua pele extremamente branca, literalmente uma boneca de porcelana e por uma grande coincidência (embora minha doutrina afirme e tenho certeza disso, coincidências não existem e sim encontros no momento devido), essa jovem é filha de uma linda mulher guerreira que conheci na luta pelas suas filhas que estavam no processo de transição (passando a ser homens trans) e ambas (são gêmeas, aliás corrigindo, são gêmeos), sofriam bullying no CIEP 259, colégio onde estudavam. Muita luta, muito esforço, reuniões, mas graças ao bom Deus, problema resolvido e hoje, 'os dois' são queridos e são referência no colégio e fazem parte do AFIM - Associação de Famílias Inclusivas de Maricá —, voltada às famílias LGBTQIAPN+ e à luta pela inclusão e pelo respeito à diversidade.

Mas, voltando ao nosso foco inicial e principal, conheci a jovem e pequena (no tamanho físico, mas enorme na garram na vontade e no profissionalismo) LARISSA MOLINA, coordenadora do projeto CUIDAR DE QUEM CUIDA da Cruz Vermelha Brasileira (filial Maricá).

Poderia ficar falando horas sobre ela (que fez uma magnífica palestra sobre neurodivergência - sua especialidade) mas dentro das matérias que gosto muito de fazer e apresentar no CULTURARTE, conversando e contato a história de pessoas e principalmente de mulheres que servem de exemplo e motivação para outras, solicitei a Larissa que contasse a sua história, e ela, dentro de toda sua sapiência, contou com detalhes toda sua trajetória de vida que reproduzimos abaixo. Pode ser um grande texto, mas é antes disso, uma grande história, que vale a pena ser lida e relida várias vezes."

Pery Salgado (jornalista)

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE LARISSA ELEN DA SILVA MOLINA, PSICÓLOGA, PÓS GRADUANDA EM NEUROPSICOLOGIA, COORDENADORA DO PROJETO 'CUIDAR DE QUEM CUIDA' DA CRUZ VERMELHA BRASILEIRA.

"Minha história começa muito antes de eu me tornar psicóloga.

Eu cresci em uma realidade de muita pobreza. Sou filha de Silvana, dona de casa, hoje “mãe da resistência”, e de Elton, ajudante de motorista em uma serralheria. Sou a segunda filha de seis irmãos. Houve um período da minha infância em que morei com minha família em um barraco de madeirite. Quando chovia, a água entrava. Não havia chão, apenas barro, e nossos pés ficavam sujos enquanto tentávamos proteger nossas poucas coisas para que não molhassem. Durante muito tempo, vivemos de aluguel, até finalmente encontrarmos um lugar que pudéssemos chamar de casa. Ainda assim, em 2010, passamos por uma enchente e perdemos as poucas coisas que tínhamos.

Mas, apesar de todas as dificuldades materiais, havia dentro de mim uma curiosidade enorme. Aos quatro anos, minha mãe me ensinou a ler, escrever e os princípios básicos da matemática: somar, subtrair, multiplicar e dividir. Aos cinco, entrei diretamente no que, na época, era chamado de 1ª série. Sempre gostei muito de aprender e, principalmente, de apresentar. Na escola, comecei a descobrir que aquilo que existia dentro de mim também podia ocupar espaços para além de casa.

Participei de concursos de poesia, Olimpíadas de Língua Portuguesa e Olimpíadas de Matemática. Eu era considerada uma aluna brilhante. Essa característica me acompanhou durante toda a minha formação e chegou à faculdade: concluí o curso de Psicologia com CR 9,70 e tirei nota máxima no meu Trabalho de Conclusão de Curso.

Hoje, olhando para trás, percebo uma coisa interessante: enquanto minha família tinha poucos recursos materiais, minha mãe me ofereceu aquilo que estava ao alcance dela: conhecimento. E talvez essa tenha sido uma das maiores heranças que eu poderia receber.

Mas a mesma criança que aprendia com facilidade também enfrentava dificuldades emocionais que, naquela época, ninguém sabia nomear. Eu tinha alterações de humor muito intensas. Podia ser extremamente extrovertida em um dia e, no outro, não querer levantar da cama ou conversar com ninguém. Explodia com facilidade e não entendia por que minhas emoções pareciam tão maiores do que eu conseguia administrar. Tudo o que eu conseguia fazer era tentar sublimar esses sentimentos ambíguos, duais e confusos por meio da poesia, da música e dos desenhos. A arte foi um dos meus recursos mais poderosos.

EXPERIÊNCIAS DIFÍCEIS

Também tive experiências difíceis dentro e fora de casa. Meus pais eram muito jovens e também não tiveram modelos de educação emocionalmente saudáveis. Em alguns momentos, acreditavam que o medo seria uma forma de me ensinar. Hoje consigo olhar para isso com mais complexidade. Não considero aquelas experiências corretas, mas compreendo que meus pais estavam tentando criar uma criança utilizando os recursos que possuíam naquele momento.

Na escola e, posteriormente, na faculdade, também enfrentei situações de assédio por parte de professores. Na época, não consegui pedir ajuda. Eu não tinha recursos emocionais para compreender completamente aquilo que estava acontecendo, muito menos para encontrar uma forma de me proteger.

A adolescência também foi marcada por conflitos familiares e emoções que continuavam transbordando. Mesmo assim, eu continuava avançando.

Terminei o ensino médio aos 16 anos, no Elisiário Matta. Aos 17, comecei a trabalhar dando aulas de reforço, como explicadora. Foi nesse período que tive meu primeiro celular e comecei, pela primeira vez, a comprar algumas roupas para mim. Até então, usava principalmente roupas doadas ou compradas em brechós. Tenho até um carinho especial pelo brechó da Capela Sagrado Coração de Jesus (em Ponta Grossa); era praticamente o meu shopping!!!

A moda era muito importante para mim porque, por meio dela, eu conseguia me expressar de uma maneira diferente.

FACULDADE E ALERGIAS

Aos 19 anos, em 2019, entrei para a faculdade de Psicologia (como bolsista pelo Programa do Município "Passaporte Universitário", na época era Universidade de Vassouras - Campus Maricá, hoje em dia é FACMAR - Faculdade de Ciência Médicas de Maricá). Eu ainda não sabia tudo o que aquela escolha significaria para a minha vida.

Então veio 2020. Foi também naquele ano que tive acesso à internet pela primeira vez em casa. A pandemia mudou o mundo e também transformou completamente a minha vida. Eu já enfrentava uma condição de saúde marcada por múltiplas alergias, mas, naquele período, tudo se agravou. Passei a frequentar a emergência com uma frequência assustadora, algumas vezes duas ou três vezes por semana.

Minha mãe chegou a deixar o emprego para cuidar de mim. Eu me sentia profundamente culpada por isso. Mas foi justamente naquele período de fragilidade que aconteceu uma transformação importante na nossa relação. Percebi que, apesar de todos os conflitos que já havíamos vivido, quando precisei, minha mãe me colocou como prioridade. Ela escolheu cuidar de mim.

Foi nesse momento que compreendi, talvez de uma maneira que nunca havia compreendido antes, o quanto ela me amava. Nós nos aproximamos profundamente e, desde então, nos tornamos inseparáveis.

DRA. STELA CABRAL e o TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR

Também foi durante esse período que conheci uma médica, Dra. Stela Cabral, que mudaria a minha vida. Ela começou a tratar minha condição alérgica, e tenho certeza de que grande parte da qualidade de vida física que tenho hoje existe porque ela acreditou em mim e se dedicou ao meu tratamento.

Mas ela fez algo que foi muito além disso. Ela também é psiquiatra e foi uma das primeiras pessoas que realmente olhou para mim e percebeu que havia algo acontecendo além daquilo que eu conseguia explicar.

Ao longo dos anos, descobri que tenho Transtorno Afetivo Bipolar. Fui avaliada por diferentes profissionais da Psiquiatria, que chegaram à mesma conclusão. Essa médica acompanhou diferentes momentos da minha trajetória: episódios depressivos, episódios de mania e episódios mistos. Ela me viu nos momentos em que eu estava no meu pior estado.

Houve um período de depressão tão grave que eu praticamente não conseguia sair da cama. Permanecia na mesma posição durante tanto tempo que desenvolvi feridas. Não conseguia me alimentar adequadamente, tomar banho, pentear o cabelo ou cuidar de mim. Minha mãe levava um sanduíche e um copo de leite até a cama e, muitas vezes, nem isso eu conseguia consumir sozinha.

Também houve momentos de mania em que eu me sentia capaz de conquistar o mundo. Em determinado período, cheguei a elaborar planos políticos para me tornar vereadora e criar um verdadeiro plano de governo, entre outras coisas que só quem já vivenciou um episódio de mania sabe como é.

Existe, inclusive, uma lembrança curiosa da faculdade: meu Trabalho de Conclusão de Curso foi produzido praticamente inteiro em três dias, durante um episódio de mania.

Hoje consigo olhar para essas experiências de outra maneira. Não como histórias engraçadas isoladas, mas como partes de uma condição que, durante muito tempo, eu não compreendia.

Durante um dos períodos mais difíceis, após experiências de assédio, também passei por automutilação, ideação suicida e tentativas de suicídio. Em uma dessas ocasiões, cheguei a ouvir da médica responsável pelo trauma que havia pessoas ali que “mereciam mais” estar vivas do que eu. Aquilo me marcou profundamente. Naquele momento, pensei que, se sobrevivesse, jamais gostaria de me tornar uma profissional assim.

Essa é uma parte da minha história que não conto para provocar pena. Conto porque ela explica algo muito importante sobre quem eu me tornei.

Eu conheci, na própria pele, o que significa não conseguir pedir ajuda. Conheci a sensação de não conseguir levantar da cama. Conheci a culpa de precisar que alguém cuidasse de mim. E conheci a diferença que faz encontrar um profissional que realmente enxergue o ser humano por trás do diagnóstico.

A CONSTRUÇÃO DE POSSIBILIDADES: DA EXTREMA CARÊNCIA A UMA PROFISSIONAL DE EXCELÊNCIA

Talvez seja justamente por isso que a Psicologia tenha adquirido um significado tão profundo para mim. Eu não escolhi essa profissão simplesmente porque gostava de estudar o comportamento humano. Eu escolhi porque, em algum momento da minha vida, compreendi o valor de ser verdadeiramente vista.

Hoje, quando olho para aquela menina que viveu em um barraco de madeirite, que usava roupas doadas, que aprendeu a ler com a mãe e que encontrou nos estudos uma possibilidade de futuro, não vejo apenas alguém que passou por dificuldades. Vejo alguém que aprendeu muito cedo a construir possibilidades onde quase não existiam recursos.

E talvez essa seja a linha que conecta toda a minha história: eu aprendi a transformar aquilo que recebi — inclusive aquilo que doeu — em alguma coisa que pudesse servir para construir um futuro diferente.

Foi assim que cheguei à Psicologia. Foi assim que cheguei à Cruz Vermelha, com o projeto Cuidar de Quem Cuida, voltado aos cuidadores de pessoas neurodivergentes, cujo sofrimento muitas vezes é invisibilizado e que também podem ter dificuldade para pedir ajuda. Foi assim que também cheguei à AFIMAssociação de Famílias Inclusivas de Maricá —, voltada às famílias LGBTQIAPN+ e à luta pela inclusão e pelo respeito à diversidade.

Foi assim que comecei a descobrir que cuidar de pessoas também poderia se tornar uma forma de transformar a minha própria história.

Hoje, quando olho para a minha trajetória, percebo que existe um fio que atravessa praticamente tudo o que vivi: o cuidado.

Fui uma criança que cresceu com poucos recursos, mas que encontrou nos estudos uma possibilidade de transformação. Fui uma adolescente que precisou amadurecer cedo e uma jovem que entrou na faculdade de Psicologia sem imaginar o quanto a própria profissão também transformaria a minha vida.

Na faculdade, aprendi sobre saúde mental pelos livros, pelas teorias e pela ciência. Mas também aprendi sobre ela vivendo experiências que nenhum livro conseguiria me ensinar.

Eu sei o que é ser uma pessoa brilhante e, ao mesmo tempo, não conseguir sair da cama. Sei o que é ser vista como alguém com potencial e esconder, por trás disso, uma dor que ninguém estava enxergando.

Sei o que é precisar de ajuda e não conseguir pedir. E sei também o que significa encontrar alguém que olha para você e, em vez de enxergar apenas um diagnóstico, enxerga uma pessoa.

Foi isso que alguns profissionais fizeram por mim. E talvez essa tenha sido uma das maiores razões pelas quais escolhi permanecer na Psicologia.

Eu não quero ser a profissional que apenas identifica sintomas. Quero ser alguém capaz de olhar para o indivíduo inteiro.

Porque, antes de qualquer diagnóstico, existe uma história. Existe uma família. Existe uma infância. Existem sonhos, medos, talentos, traumas, desejos e possibilidades.

E, muitas vezes, existe uma pessoa que passou anos acreditando que havia alguma coisa errada com ela simplesmente porque ninguém havia conseguido ajudá-la a compreender o que estava acontecendo.

Foi também por isso que comecei a me envolver cada vez mais com projetos voltados à saúde mental, à inclusão e ao cuidado. Em algum momento, percebi uma coisa que parece óbvia, mas que muitas vezes é esquecida: quem cuida também precisa ser cuidado.

Profissionais da saúde, familiares, cuidadores, professores, voluntários e tantas outras pessoas que passam a vida sustentando outras pessoas também são humanos. Foi desse entendimento que nasceu o meu desejo de trabalhar não apenas dentro do consultório, mas também fora dele.

DEVOLVER AO MUNDO, AQUILO QUE UM DIA ALGUÉM ME OFERECEU

A Psicologia, para mim, deixou de ser apenas uma profissão. Ela se tornou uma forma de devolver ao mundo um pouco daquilo que um dia alguém me ofereceu.

Hoje, quando subo em um palco para falar sobre saúde mental (confira abaixo, ao final da matéria, trecho da palestra na Expo Maricá 2026), neurodivergência, inclusão ou acessibilidade, existe uma menina debaixo daquela profissional.

- A menina que viveu em uma casa onde a chuva entrava.

- A menina que aprendeu a ler com a própria mãe.

- A menina que escrevia poesia.

- A adolescente que começou a trabalhar cedo.

- A estudante que precisava tirar notas excelentes enquanto lutava internamente com coisas que ainda não sabia nomear.

- A jovem que um dia precisou ser carregada emocionalmente pela própria família e por uma médica com um olhar empático e gentil.

E existe também a mulher que sobreviveu a tudo isso sem precisar transformar sua história em vergonha.

Eu não romantizo o que vivi. Não acredito que o sofrimento seja necessário para alguém se tornar forte.

A TRANSFORMAÇÃO EM CUIDADOS


Se eu pudesse escolher, aquela criança teria tido mais conforto, mais proteção, mais segurança e menos coisas para aprender tão cedo. Mas hoje posso escolher o que faço com essa história.

E eu escolhi transformá-la em cuidado.

Talvez essa seja a parte mais bonita da minha trajetória: passei grande parte da vida tentando entender por que eu sentia tanto, por que funcionava de uma maneira diferente, por que algumas coisas eram tão difíceis para mim.

Hoje, trabalho para que outras pessoas não precisem passar tantos anos se fazendo as mesmas perguntas sozinhas.

Eu ainda sou aquela menina curiosa, que ama aprender. Ainda gosto de escrever. Ainda gosto de estar diante de pessoas e contar histórias.

A diferença é que hoje tenho uma voz, uma profissão e um propósito.

E, se existe alguma coisa que a minha história me ensinou, é que o lugar de onde alguém começa não determina até onde essa pessoa pode chegar.

Eu vim de uma infância em que faltavam muitas coisas. Mas nunca faltou dentro de mim a vontade de aprender, de compreender e de continuar.

E foi assim que cheguei até aqui.

Não porque a minha história tenha sido fácil, mas porque, em cada capítulo, encontrei alguma maneira de continuar escrevendo."

Que história, que exemplo de vida, que grande motivadora é nossa querida LARISSA ELEN DA SILVA MOLINA (27), Psicóloga e Neuropsicóloga, coordenadora do projeto CUIDAR DE QUEM CUIDA.

Parabéns menina, conte sempre com o Culturarte e com o Jornal Barão de Inohan!