quarta-feira, 7 de outubro de 2026

TUDO PASSA NESSA VIDA (passa???) por Cinthia Ferreira


Mas isto não importa.

Sente nesta imagem a mesma paz que eu sinto.

A mesma paz que cada pequena parte do meu ser anseia em alcançar?

Dizem que durante a vida temos momentos de paz.

São raríssimos, mas temos sim (risos de aceitação).

Meu desejo é que nesta existência aqui, agora, de ossos, sangue, carne, coração, cérebro e mais, que esta paz pelo menos durasse um pouquinho mais.

Mas tudo passa nessa vida.

Tudo.

Momentos ruins E infelizmente os bons. Inclusive a vida.

Fico pensando que se existe algo depois daqui (que eu creio ter), será que esta tão desejada paz seja alcançada de alguma maneira que eu não sei explicar?

Meu corpo, minha mente, meu espírito, minha alma, minha essência tem andando exausta de uns bons anos para cá.

E mais uma vez, assim como em há 6 anos atrás , eu estou muito perto de colapsar. Eu só tenho 38 anos, mas parece que nessa vida eu já vivi uns 600 (risos nervosos).

É um peso absurdo. É uma mente louca que não se cansa nunca de pensar, e pensar, e pensar, e pensar, e pensar, e pensar até chegar ao esgotamento total.

É um corpo que parece forte, mas que pediria a misericórdia de ser exterminado.

É um coração que foi baleado tantas incontáveis vezes que não existe parte em que não encontre buraquinhos, estilhaços e muito sangue. Um sangramento 'ad aeternum…'

Eu sei que dizem que por aí que cada um carrega a cruz que suporta. Mas caramba! (risos angustiados).

Eu esgoto 100% de tudo o que passa pelo meu cérebro de uma cabeça grande o tempo INTEIRO pensando em minha mãe, meu filho, meu pai, minhas sobrinhas, minha irmã, em como eu posso agir para resolver o máximo de questões possíveis. E eu não encontro… E me sinto culpada, incapaz.

Esse tipo de postura me tomou no momento em que meu pai se foi na minha frente. Eu pensei em chamar Deus e o mundo para ficar com as pessoas da família que estavam na cena. Eu me desesperei por bombeiros, SAMU… Até eu precisar acionar a funerária. 

Eu nunca vou esquecer de 2 homens colocando o corpo do meu pai em uma caixa de fibra (sei lá), e saindo pelo meu portão de garagem. Me certifiquei de observar se cada uma (e meu filho por telefone quando avisei) estivessem amparados de alguma forma. 

Lembro de tentar convencer acalmando uma das meninas de que ele não tinha morrido (antes da funerária chegar). “Ele está bem. Ele está confortável. Você até colocou um travesseiro para ele, você o cobriu para não sentir frio. Ele só está dormindo”. E eu estava absolutamente destruída. 

No dia seguinte, domingo 21/7/24, o funeral. Corri muito para resolver todos os problemas que ocorram com a certidão dele a tempo de chegar antes do cortejo. Eu não sei, e nunca saberei explicar o que senti o vendo naquela urna mortuária. Era um pesadelo que se tornou real. 

De novo olhei para cada uma de nós e vi que cada uma tinha pessoas abraçando, de mãos dadas. Antes do Pastor falar e orar quis ler a Prece de Caritas. Quase não saiu, mas eu consegui. E permaneci dentro daquela sala até onde aguentei. Segui o cortejo, vi o sepultamento… 

E foi quando percebi que eu não reparei nas várias e várias pessoas que foram (apagou da minha memória), e também reparei que eu era a única do início ao fim em quem não tive ninguém ao meu lado. Esse é o preço que pagamos por sermos “fortes”, tomarmos a frente das resoluções e tentar fingir que é de ferro. Mas só eu sei o preço que eu pago até hoje por isso…

E por muitas vezes meu corpo, minha mente, meu espírito, minha alma clamam por esta paz que supostamente meu pai encontrou em 20/7/24. Não é desejo. É um pedido de socorro. Eu preciso!!!


Texto e fotos: Cinthia Ferreira (educadora e influenciadora)
Diagramação e inserções: Pery Salgado (jornalista)
Realização: PR PRODUÇÕES